Origens…de um homem.
Escrevo por sentir, sentir o cheiro do passado, almiscarada tremura que emano com a brisa que acaricia o meu corpo no momento de sentir, sentir o suave rasgar das rotinas estabelecidas num terno murmúrio de lento deleite e reconhecimento. Escrevo por sentir a fragrância do lótus florido, trazida pelo corpo da aragem que acerta em cheio no meu rosto, quando o meu peito ruma ao desconhecido, ao futuro.
Sou filho de uma gota de Mar, fermentada no calor da chama que não tem idade e vive em tudo, eterna fonte de vida. Temperado em sucessivos sopros de fragrâncias verdes subtis. Filho da terra húmida, do riso do raio de sol, da fresca água que jorra do centro da terra, parte de mil essências que se fundem na carne efémera de caminhante. Tolo, louco e desabrido, inconstante mas resplandecente na busca, com os olhos postos no horizonte e os pés descalços na trilha quente, os braços esquecidos no perpétuo movimento das mãos esvoaçantes, senhor de mim de tudo e de nada.
Preso no ciclo do movimento, das correntes de água que flúem no caminho de uma só direcção que flúi aparentemente no acaso, se esse acaso é o vazio, que seja o vazio onde a alma interpenetra a matéria no corpo como consciência única, da integridade do que eu sou, entre tantos outros.
Caminho com os pés descalços pela orla de um Mar que é margem dos caminhos da terra, observo as aves que se elevam no céu e sincronizam o coração com a batida das ondas na margem. Preso na margem sinto a imensidão, sem ter mais acesso do que aquele que a imaginação me permite, preso neste corpo fora do tempo. Mantenho a dimensão de uma pequena gota de água que condensa o sal na fusão com a chama.
Hercúlea força, a minha; de uma só vontade quebra o elo da corrente que prende ao algoz, símbolo de poder exercido e participado pela pérfida vontade de conter o outro, esse outro somos todos, o eu vivo. Harmonizar o percurso, limpando o terreiro seguindo a tradição da roda, dançar descalço no pó a sentir o céu em nós, aceitar o som de sentir o eco do boom primordial, o ruído estridente do aço a dilacerar no tempo, separando o engano da realidade. Um eco tão forte, a violência do aço a partir pela força que só sobra na distancia, que brade pelo espaço na fúria selvagem de quebrar, o eco que se perde no tempo, estalo na ponta de um chicote, prolongamento de vontade expresso no membro que actua. O membro está, par do outro seu igual, o chicote também, símbolo do poder da vontade, o movimento ficou, perdido no momento do acto…o eco desvanece-se consumido pela sua própria energia através do tempo, do seu tempo.
Esgotam-se os sentidos, os passos repetidos, as vontades falidas no Outono das folhas que voltam à terra e reintegram a essência.
Certeza de mim,
Fonte inesgotável,
Saudável criação,
No devaneio da imaginação,
Peso os passos,
Liberto a vontade,
Reintegro a minha essência,
Nesta imutável condição…
Apuro o sentido.
Escrevo sem consciência de mim ou de ninguém, nada me prende, nada tolhe a fonte, só a energia divina em forma de amor me transforma pela vontade das minhas mãos.
Caminho pelas pontes ancestrais, das necessidades e missões de almas fraternas que movem o silêncio, amparam a dor do desabrochar da chama, que arde no interior em silêncio, que unem as margens sem estreitar ou embarreirar o livre curso das águas.
Sento-me no caminho, em contemplação com a tradição da repetida mudança, enterro os pés na terra criando raízes de realidade, vejo o horizonte com a serenidade da vontade em comunhão com o sentido de pertença da tradição.
Liberto os bordões que ampararam o caminho, que prenderam a minha mão ao necessário prolongamento do tríplice equilíbrio. Duas pernas e um apoio, um tríptico material de sustentada vontade. Sinto agora as mãos livres para sentir a fragrância do ar, a suavidade das pétalas, a frescura da brisa, o calor dos momentos. As minhas mãos já não são minhas, o verdadeiro apoio agora sou eu, a minha vontade livre nos gestos da ondulante flutuação das mãos entregues ao mestre que me conduz. Mãos que não me pertencem, quero merecer a bênção de terem sido aceites pelo mestre, mãos sábias que sentem e fazem sentir, o corpo vai atrás, a mente observa e vai transmutando o velho em novo. Mãos que guiam e chamam outras mãos, essas que têm a harmonia do amor em efervescente energia que brota, todas são uma só… mão, a mão do mestre.
Dedico a identidade, o percurso, os sonhos bonitos, do berço até à mortalha… ao mestre que guia minhas mãos.
As vontades fundiram-se em fogo lento, purificando as sensações e os véus, avolumando a forma desta vontade única e plena, a vontade do mestre.
A integração é agora o percurso, a aprendizagem o fogo lento, a descoberta a escola, o movimento a energia que flúi sem bloqueios defendidos ou indefinidos. Integrar a serenidade, na verdadeira natureza das coisas. È um grito silencioso …
Desconexa maturidade, esta que se cala nas minhas palavras, aquém do que sinto…
Braco
2006