Perdoa-me?
Existem certas palavras “sagradas” que deveriam ser pronunciadas em raríssimas ocasiões, apenas.
“Perdão” é uma delas.
Hoje banalizada, é usada para as coisas mais corriqueiras do dia a dia.
Mas não é desse uso “casual” que quero falar, mas do seu sentido mais profundo. ***
O que realmente quer dizer “perdoar”?
O Perdão existe de fato nesse nível de seres humanos que somos?
Eu creio que não.
Pedir perdão é muito fácil, mesmo que sinceramente o pedido venha acompanhado de um arrependimento profundo.
Analiso aqui as duas partes envolvidas, e vejo o seguinte:
- Se alguém prejudicou, ofendeu, magoou, etc, a outrem e pede perdão, o que realmente está querendo é sentir-se livre da culpa, anular a carga de algo negativo que lhe pesa na consciência e na alma.
Porém, mesmo que a outra pessoa verbalize o “perdão”, o “perdoado” ainda saberá que lesou o outro. Somente uma Força realmente superior, em nível acima do humano, poderá anular essa sensação de dívida, e mesmo assim apenas quando ocorrer o ressarcimento da mesma, além das simples palavras.
- E a pessoa a quem o perdão foi pedido?
Dizem que perdoar é esquecer.
Ora, esquecer é impossível para alguém que seja saudável física e mentalmente, pois nossa memória registra todos os acontecimentos e os acessa com freqüência, especialmente os importantes.
Mais ainda! Nossa alma (espírito, mente superior, ou como queiram chamar), também se impregna com um registro dos fatos.
Digamos que realmente a “vítima” esteja disposta a “esquecer” tudo, mesmo assim, dizer que “perdoa” é arrogar-se possuidor de um poder que de fato não detém.
Isso, antes de criar a harmonia, somente coloca a “vítima” em posição superior ao “agressor”.
E sempre que existe um desnível entre duas pessoas não poderá haver união de fato.
O que então deveria ser feito?
Algo muito simples.
Quem sabe que errou e se arrepende disso, deve apenas dizer:
“Sinto muito! O que posso fazer para ressarcir o mal que cometi contra você?”
E a “vítima”, caso realmente queira, poderá pedir aquilo que ela acredita que apaziguará seu coração.
Muitas vezes ela precisa de algo muito simples, aparentemente aquém do que foi feito, mas isso a satisfaz.
Aí, então, aceitando o que o outro lhe “devolve”, se desfará o desnível, e ambos poderão se olhar de igual para igual.
Li uma frase de Alessandro Manetti que diz: “Perdoar significa não transformar o ressentimento em vingança”, e é exatamente isso.
A partir do acerto, pode se retomar a harmonia rompida da relação.
Ou não. A antiga “vítima” já livre pelo ressarcimento pode seguir seu caminho sem vinganças, sem desejar o mal ao outro, mas com o direito pleno de não mais querer a convivência.
Nesse caso, que sirva ao “agressor” a lição, para que não tenha que pedir novamente “Perdão”.
Apagar tudo?
Perdão de fato?
Ah! Isso já é com outro departamento muito acima de nós.
***Meu texto foi baseado em parte na teoria da Terapia criada pelo psico-terapeuta alemão Bert Hellinger chamada Terapia Familiar Sistêmica Fenomenológica, popularmente conhecida como “Constelação Familiar”, e confirmada milhares de vezes na prática dessa terapia.
Dry@de